Sempre tento me lembrar da infância e me vem imagens de quando eu tinha uns 5 anos e iria a uma festa junina na escolinha que eu estudava. Me recordo de estar fazendo uma maquiagem com aquelas pintinhas no rosto e tudo mais. Nesse momento eu despertei para a consciência. Foi um dia importante, estava ansiosa pela festa. Brincadeiras, pipocas, refrigerantes, tudo ótimo! Tinha até piscina...
Esperava meu pai me buscar, quando derrepente chegaram duas viaturas da polícia com a sirene ligada e quem sai de lá de dentro algemado, dizendo que me ama, não poderá me levar pra casa e pede humildemente pra "tia" dar um jeito e me deixar com a vizinha até minha mãe chegar do trabalho? Foi uma das cenas mais marcantes da minha vida e em nenhum momento senti vergonha do homem que sem pudores mostrou toda sua fragilidade, nesse momento ele me ensinou a ter sempre a cabeça erguida, em qualquer circunstancia...
Ele estava desempregado e cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava como camareira em um hotel chique da cidade.
Em casa sem fazer nada e sem grana, ele se juntava com uns adolescentes da rua onde moravamos para fumar um e matar o tempo enquanto eu estava na escola, depois ia me buscar. Saudades dessa época... passavamos muito tempo juntos. No dia fatídico da prisão, um desses amigos desocupados, roubou um aparelho de som e chegou correndo la em casa, pedindo pro meu pai guardar a muamba, mas a polícia estava seguindo o sujeito e sobrou pra quem? Receptação, uns meses preso, minha mãe sem grana pra pagar advogado, um sufoco danado. Mas acho que foi essencial pro meu pai por os pés no chão e procurar um rumo certo.
Era um momento difícil para meus pais, na verdade, eles nunca se deram bem e eram tão diferentes que não dava pra entender como estavam juntos a tanto tempo. Bem, na verdade, eu sei como começou... minha mãe estava noiva de um rapaz com o futuro promissor, (hoje ele é delegado) e conheceu o cunhado da amiga que dividia aluguel com ela, era meu pai. Ele era muito engraçado, divertido, maluco beleza e playboyzinho, nada haver com minha mãe super formal, politicamente correta em tudo e seu noivo caxias. Mas ela se encantou de alguma forma por aquele cara largado que ainda nem tinha terminado o supletivo do segundo grau, ele só queria curtir a vida adoidado. Então eis que minha mãe fez uma confissão para ele, era virgem. Ele claro, fez chacota e não acreditou, mas minha mãe, na mais pura ingenuidade fez algo que ninguém acreditou, provou pro meu pai que era virgem... como? Conceberam esta criatura que vos fala. Foi de primeira. E quando eu estava com dois anos eles foram viver juntos.
Brigas e mais brigas e o único momento em que me lembro de te-los visto em paz foi quando conceberam minha irmã, eu estava com sete anos.
Aproveitei bem minha infância, era muito moleca e adorava subir em árvores e pular muros, o que me rendeu várias surras. Eu era muito arteira e com frequência minha mãe me batia e fazia com que eu fosse pra escola de saia curta pra mostrar as pernas com os vergões. Naquele tempo, crianças apanhavam muito, era normal, era a forma de educar. As surras não me valeram de nada, não me amedrontava apanhar, eu tinha medo era dos sermões intermináveis da minha mãe, esses sim, surtiam efeito. Pancadas não corrigem ninguém.
Eu era inteligente e destaque na escola da primeira a quarta série. Isso fez com que eu apanhasse menos. Porém, lá pela quinta e sexta série, comecei a mudar, fazer bagunça, me interessar por meninos e brigar. Mas eu só conseguia bater em garotos. Quando arrumava confusão com uma menina, ou ganhava no grito, ou uma amiga qualquer tomava as dores e batia na garota, eu simplismente fugia e ficava chorando, porque não sei. Nunca consegui bater numa fêmea, mas os guris da escola se deram mau comigo e eu batia sem dó nem piedade. Perdi as contas de quantas vezes meus pais foram chamados na diretoria por causa das minhas confusões.
Mas o tempo foi passando e comecei a namorar, aí deixei os garotos em paz e então já não conseguia brigar com ninguém, nem no grito.