Há muito tempo pensava
em escrever sobre isso, porém a inspiração não vinha apesar de já ter tido uma
experiência péssima que me trouxe o melhor presente de Deus, meu filho Júlio.
Agora tenho a
necessidade de desabafar e contar tudo que aconteceu antes e agora.
Mãe de primeira viagem:
Tinha apenas 17 anos,
quando engravidei, não foi planejado, nem festejado apenas aceitei e encarei as
responsabilidades. Sofri muito nesse período, não era amada, não trabalhava,
não podia escolher ou determinar nada (O pai do meu filho é e sempre foi um
ótimo pai, presente e arcou com tudo, só tenho a agradecê-lo, mas aqui não cabe
falar sobre isso).
Quem me conhece sabe o
quanto eu sou chorona, grávida então era uma manteiga... Vivia aos prantos e
ansiosa para acabar logo com o “tormento” que era aquela barriga enorme. O que
tinha de bom? Eu não sentia nada, nem dores, nem enjoos, nem nada durante a
gravidez. Tive apenas piolho, não sei por que, mas fiquei das mais piolhentas.
O tempo passou
lentamente até chegar o dia tão esperado, nesse dia eu já havia me conformado
com a situação e estava ansiosa pra ver o rostinho do meu bebê e enfim me
livrar daquela barriga gigante.
Fui para o hospital (público)
umas três vezes e me mandavam voltar porque não estava com dilatação
suficiente. Há essa altura eu já estava me contorcendo de dor em casa, mas não
parava de comer... – Ai mãe tá doendo!! Não tô aguentando!! Me dá mais pão?... Chegava
uma vizinha e me dava chá de canela. – Mãe, tá doendo mais... Me dá biscoito?...
Chegava outra vizinha e me dava boldo... E assim foi, cheio de gente lá em casa
eu com dores e minha mãe desesperada me mandando parar de comer.
Quando me aceitaram no
hospital da Ceilândia, eu estava com quatro centímetros de dilatação. Deram-me
aquela camisola horrorosa pra vestir, eu sentindo dores que eu já julgava a
coisa pior do mundo, entrei para a sala de pré-parto, onde havia quatro macas e
apenas a que eu iria ficar desocupada. A partir daí, não podemos sequer beber água.
Meu tormento foi começando... As mulheres entravam e saiam, algumas gemiam ou choravam,
mas logo iam parir... Eu a cada minuto ia me desesperando mais... Não fizeram
lavagem e por aí dá pra imaginar que quando a dor apertou mesmo, eu comecei a
me cagar toda, vomitar, etc, etc... Perdi a lucidez totalmente, comecei a
gritar e pedir que me matassem porque não suportava mais aquela dor... Não
conseguia ficar com o soro no lugar e perdia as veias toda hora, fiquei toda
furada e com coágulos de soro sob a pele. A partir daí, comecei a xingar todos
os palavrões que eu conhecia e em todas as línguas... Estava realmente fora de
mim. Percebi que já não entravam mais mãezinhas onde eu estava. Me isolaram. Fiquei
ali, sozinha e pedindo pra Deus me matar logo, na voz mais alta que eu
conseguia...
Veio uma moça da
limpeza trocar a cama, mas ela ficou tão penalizada com meu estado: vomitada,
cagada, mijada, entre outras coisas, que ela me levou pra tomar um banho. No banheiro,
só água gelada (ela me disse que era pra apertar mais a dor... eu hein...)
resultado, fiquei resfriada... Minha pressão baixou ou subiu, sei lá e
desmaiei. Ela chamou outra mãe que também tomava banho e me ajudaram a acordar,
levantar e voltar pra minha agonia no isolamento. Médicos ou enfermeiros? Nesse
momento deviam estar vendo Tv ou dormindo, vai saber.
Queria muito lembrar o
nome dessa moça que me ajudou... Ela me trocou, limpou o isolamento, me deu um
lençol limpo e pediu que eu me acalmasse porque quanto mais eu gritasse e
pedisse pra morrer, eles me deixariam ali a própria sorte, sem se importar se
eu iria morrer mesmo.
Com frequência alguma pessoa
passava pela janela e dizia que na hora de dar foi bom né... Não chorou, nem
xingou... Risadas e piadas que eu já nem distinguia mais.
Pra completar, na alta
madrugada, uns médicos residentes que acho, não tinham o que fazer, resolveram
entrar na sala, encheram uma luva cirúrgica e cobriram com o lençol limpo que
eu havia ganhado. Ali ficaram examinando a luva e falando termos técnicos,
rindo e debochando do meu estado. Eu nesse momento pedia pelo amor de Deus que
eles fizessem o toque porque eu já não aguentava mais... Nada fizeram além de
rir do meu sofrimento.
Então eu saí da sala
pelada andando de quatro e gritando por ajuda pra ver se alguém tinha
misericórdia... nada. Apenas risadas, muitas risadas...
Voltei ao isolamento e
falei com Deus que já estava pronta pra morrer, não tinha mais jeito... Perdi tanto
a noção do tempo que nem havia notado que já estava nessa agonia há dois
dias...
Perdi as forças,
gritava e não saía voz... Eis que um milagre aconteceu, a mesma moça que me
ajudou estava de plantão novamente e ficou chocada ao me ver – Nossa, coitada! Você
ainda está aqui e largada desse jeito quase morta... Espera um pouco que eu já
volto.
Ela parecia um anjo
vindo me buscar... Pensei que já havia morrido.
Minha salvadora chegou
com um velhinho todo de branco, achei que era Deus... Depois pensei, ah não ele
não vai vir me buscar pessoalmente, deve ser um ajudante, um anjo talvez...
O médico então deu um
berro depois de me examinar, brigou com os residentes e perguntou por que eu
estava ali naquele estado lastimável. Rapidamente, me levaram pra cadeira
cirúrgica e disseram pra eu fazer força. Força? Como assim? Eu nem conseguia
respirar, achava que havia morrido. Como eu não reagia e eles estavam com
preguiça de fazer uma cesárea, duas enfermeiras subiram em um banco e
empurraram meu filho, enquanto eu alternava entre desmaiar e acordar... Um
médico na minha frente insistia em me pedir pra fazer força, eu mandei ele se
fuder... Ele talvez por vingança encharcou a mão no álcool e meteu o dedo no
meu cú... Era só o que faltava, mas eu nem sentia nada... Só percebi por ser um
dos momentos em que eu estava de olhos abertos. Levei três cortes e dezoito
pontos, tudo a seco, sem anestesia. Mas as dores da contração eram tão fortes
que isso era fichinha. Me empurraram a barriga com mais força e ele começou a
nascer, eu então despertei e queria saber logo como ele era, esqueci de tudo... Mas
ele demorava a sair então puxaram ele com um ferro... Enfim ele estava fora de
mim... Roxinho sem respirar. Colocaram unas mangueirinhas pelo nariz e
conseguiram descongestionar as vias aéreas, ele respirou e chorou bem
fraquinho. Aproximaram-no de mim e eu só consegui perguntar se ele estava fora
de perigo, me disseram que sim, então eu apaguei. Só acordei no outro dia, em
um quarto cheio de mães com seus filhotes... E o meu? Cadê ele? Comecei a
chorar... Logo veio uma enfermeira com aquele menino tão branco feito neve e
falou: -Bote os peitões pra fora que ele está com fome! E assim eu fiz, mas
reclamando que ele não era meu filho, não era possível que um menino daquela
cor e de olhos tão claros fosse meu... O meu era o da outra ao lado bem moreno,
elas haviam trocado meu filho... Estava mesmo fora de mim. A enfermeira riu e
chamou mais algumas mulheres do berçário que gostariam de conhecer a “mãe escandalosa
que deu muito trabalho”... A partir daí
consegui rir de tudo, e muito feliz com meu filho lindo nos braços, voltei pra
casa e matei as pessoas de rir contando minha fatídica saga.
Mãe de segunda viagem
Aos 35 anos, já uma
semi-senhora, com miomas e uma gravidez de alto risco, lá vou eu
começar tudo novamente. Dessa vez, tudo planejado e muito esperado...
A cada dia minha
barriga crescia mais e todos percebiam e comentavam... eu estava super feliz em
fazer a barrigona tão temida no passado.
Estava com 10 semanas
indo fazer a ecografia morfológica de primeiro trimestre, quando a médica disse
que meu filho só desenvolveu até a sexta semana e o coração não estava batendo...
O chão se abriu, meu filhinho morto...
Eu tive que ir ao
hospital fazer uma curetagem pra “limpar” meu útero.
Dessa vez me internei
em um hospital particular, pois agora tenho plano de saúde, pensei que pelo
menos não sentiria dor, mas pra meu desespero, eu tive que dilatar o colo e
novamente passei pela agonia daquelas dores malditas... Mas agora sem chance de
ver ao final o rostinho do meu bebê. Foi muito difícil, mas a maturidade não me
permitiu fazer um escândalo novamente. Sofri calada, em voz baixa e
introspectiva. Optei por não ter nenhum parente por perto. Fiquei novamente
dois dias internada, atormentada e triste.
Agora estou em casa. Cheguei
ontem.
Quero dizer que não me
arrependo ou terei medo. Sei que meu segundo filho cumpriu o propósito dele
nessa passagem tão rápida. Foi só pra sofrer? Não ele me ensinou muitas
coisas... Sei que Deus no momento certo me trará outro filho, dessa vez me
dando mais tempo de conviver com ele, conhece-lo, ensina-lo, vê-lo crescer e
prosperar. Estou feliz apesar de tudo, pois acredito na minha recuperação e
sinto que em breve poderei contar uma bela história sobre a minha terceira viagem,
dessa vez com um parto cesáreo, sem complicação e sem dor, por favor, obrigada!